Meus demônios são exteriores

Eu queria falar sobre umas coisas que parecem terem ficado confusas pela forma que me expressei. Quem me acompanha deve saber que andei/ando em uma crise de autoestima por causa da minha aparência há uns dias e ela não é a primeira. Porém apesar de dar a entender pelas minhas manifestações que não me acho uma mulher bonita, isso não é verdade. Enquanto a minha relação é só entre eu e o espelho está tudo surpreendentemente bem, eu gosto da maioria das coisas que vejo nele e gosto na maior parte do tempo. Sei que não sou a top model que vai estampar a capa das revistas, mas mesmo assim tá tudo bem. O meu problema não é (só) estético, é uma questão de identidade, de reconhecimento do meu eu. É diferente do que acontece com qualquer mulher cis e seus conflitos com a aparência, porque mesmo que ela não se sinta bem com seu corpo, isso não faz com que ela não seja tratada pelo que ela realmente é, uma mulher. O que acontece comigo é muito mais invasivo, mais violento e mais cruel, porque o que sou é ignorado completamente e a minha identidade por muitas vezes fica à mercê de uma liberdade que o outro pensa que tem para definir o que eu sou. Você, mulher cis que me lê agora, já foi insultada alguma vez no meio da rua por um desconhecido de forma completamente gratuita, sendo chamada de “traveco”, “viado”, “aberração” ou qualquer outra coisa nesse sentido? Pois bem, comigo isso ainda acontece, e pode acontecer a qualquer momento.

Eu não me torno uma pessoa com autoestima baixa por não reconhecer minhas qualidades, porque sei que sou inteligente, comunicativa, carismática, bem-humorada, divertida e na maioria das vezes bonita também, eu acabo ficando mal porque a forma aniquiladora que por muitas vezes o mundo age para comigo me dá uma total sensação de não pertencimento, de inconformidade e que por não ser cis minha existência é um erro. E é aí que começam as minhas paranóias, é aí que começo a caçar defeito em tudo quanto é parte de mim, é aí que passo odiar ter “cara de trans”, é aí perco a vontade de existir. Não é fácil viver todos os dias com todo um entorno te dizendo nas entrelinhas que é errado você ser como é, como se sua mulheridade fosse uma mentira ou como se você tivesse tentando enganar a todos sendo algo que não é. Essa é a minha realidade, e nela é constante eu perceber que o tratamento comigo e com as mulheres cis é diferente, seja por parte de conhecidos ou de desconhecidos, mesmo porque me tratar direito é muito mais do que usar os pronomes corretos.

Enfim, ao contrário do que muita gente vêm me dizendo, não é algo que “tem que vir de dentro”, porque aqui dentro está tudo bem, é o externo que estraga tudo, é o externo que me coloca em situações que me faz sofrer e é ele que faz eu começar a me odiar. E é por tudo isso que a passabilidade cis é tão importante pra mim, porque sei que não vou estar viva para ver uma sociedade sem transfobia, então não aparentar ser trans, não ser reconhecida como uma mulher trans é a única saída que considero plausível.

Se você deu atenção às minhas palavras até aqui, muito obrigada. Tenho sentido que a cada desabafo mais pessoas meio que desistem de mim ou estão tão cansadas de me ver sofrendo pelas mesmas coisas que nem se manifestam mais, mas acho que é bem óbvio que também tô cansada de me sentir como um cachorro correndo atrás do próprio rabo sem conseguir resolver meus próprios problemas, mas ainda que eu acabe sozinha por falar sobre o que se passa aqui dentro, gritar minhas dores é parte do processo para eu não surtar de vez. É isso, no fundo eu gosto e me orgulho da mulher que sou, apenas queria que o olhar do mundo conseguisse vê-la sem o filtro da transgenereidade que distorce e invisibiliza muito do que eu sou, me deixando mal a ponto de querer desistir de tudo. Eu só quero me sentir uma mulher normal, como uma mulher cis, como qualquer outra.

Muito obrigada pela atenção. De verdade.

Anúncios