Vamos falar do dia das mães?

Talvez a maioria das pessoas por aqui não saibam, mas muitas mulheres trans são completamente estéreis, tanto por evidentemente não terem um útero, mas também porque a terapia hormonal pode castrar quimicamente a alternativa de reprodução biológica que nosso organismo dispõe, esse é o meu caso inclusive. Ou seja, não terei filhos biológicos, a “linhagem de sangue” que algumas pessoas tanto valorizam da minha parte acaba em mim.

Não tenho ainda uma opinião formada se tenho ou não o desejo de adotar crianças, mesmo porque com certeza no momento que estou vivendo nem cabe pensar nisso. Mas é muito delicado pra mim pensar que essa é a única opção que tenho para suprir o desejo de ter filhos, e sim, eu gostaria muito de engravidar e não poder é algo difícil de lidar pra mim.

Por isso, acredito que aquilo que tenho a dizer em uma data como a de hoje contempla não só mulheres trans que não podem ter filhos biológicos como eu, mas também mulheres cisgênero estéreis e toda mulher que não tem o desejo de ser mãe: parem com esse papo de que ser mãe é sinônimo de ser mulher, ou que uma mulher só se torna “de verdade” quando é mãe, que só estarão “completas” quando tiverem seus filhos ou qualquer baboseira nesse sentido. Parem, apenas parem. Porque além de toda essa conversinha ser bem machista, ela é cruel e relega a quem pariu toda a responsabilidade por essa vida que acabou de nascer, sendo que o outro progenitor é visto como um mero “ajudante” nesse rolê. Ou seja algo completamente desumano. A romantização da maternidade é uma tática perversa para convencer a mulher que pariu uma criança que toda a sobrecarga de trabalho que o sistema patriarcal lhe impõe a partir daí é “natural”. Ah, e “instinto materno” não existe, é mais uma groselha desse jogo sujo que impõe um peso de que se não for uma boa mãe ou não quiser você está falhando com a sua “natureza feminina”. Tenha dó, né? Mesmo porque todas as mulheres mães que conheço dizem que ser mãe é foda e algo quase enlouquecedor de tão desgastante.

Por fim, eu ou qualquer outra mulher sem filho, seja pelo motivo que for que não os tenhamos, não somos menos mulheres por isso. Mulheres não são meras incubadoras de gente e escravas do patriarcado na criação de seus filhos. Mulheres são pessoas com sonhos e desejos, e, ser mãe pode muito bem não ser um desses e tá tudo certo.

Eu, Maria Luiza, sou (por infelicidade do destino) uma mulher trans, sem útero, sem vagina e sem filhos, mas ainda assim sou mulher pra caralho e ponto final.

Meu total respeito, admiração e apoio a todas às mulheres mães fodas com quem tenho o prazer de conviver, e à minha mãe, meu amor imensurável, só nós duas sabemos o que já passamos juntas.

Valorize sua mãe e não faça dela uma escrava do seu comodismo. É isso.

Anúncios